Escreve o jornalista do Jornal I, Bruno Faria Lopes, que um "relatório de 2003 mostrava que optimismo sobre o PIB já era um problema nos programas de ajustamento do Fundo. A admissão de subestimação dos efeitos de austeridade na economia por parte do economista-chefe do FMI foram revelados como uma surpresa – mas o que dizia a vasta experiência anterior do Fundo em programas de estabilização de economias emergentes? Um relatório divulgado em 2003 pelo departamento de avaliação independente do FMI – separado da gestão da instituição e destinado a “ampliar a cultura de aprendizagem no Fundo” – apontava já “fragilidades” na concepção dos programas, ligadas a optimismo nas previsões económicas.
“O relatório encontra provas de fragilidades no desenho dos programas em certas áreas. Há uma tendência para adoptar metas orçamentais baseadas em pressupostos excessivamente optimistas sobre o ritmo de recuperação da economia levando a um desempenho abaixo do esperado e a revisões frequentes das metas”, lê-se no sumário do documento “Fiscal Adjustment in IMF-Supported Programs”. Mais à frente os avaliadores do Fundo notam que os “níveis absolutos de receita respondem ao crescimento com a insuficiência no crescimento a corresponder a insuficiências na receita”. A experiência do Fundo – que inclui duas intervenções em Portugal, em 1979 e em 1983 – incidiu sobre economias emergentes ou em vias de desenvolvimento, com características diferentes das de economias mais avançadas da zona euro. A prevalência do problema de sobrestimação do ritmo do PIB (detectado numa amostra de 15 países) chegou, contudo, para ser destacado no relatório como uma das principais conclusões. Os avaliadores não fazem qualquer referência à questão agora polémica dos multiplicadores (que medem o impacto na economia de cada euro de ajustamento orçamental), notando que o optimismo se deveu “frequentemente” a pressupostos por sua vez optimistas sobre a recuperação do investimento privado, “que poderiam ter justificado a adopção de uma abordagem orçamental mais relaxada com justificação anticíclica”. O FMI sublinha que o efeito dos erros de previsão é maior no caso no caso de ajustamentos orçamentais mais elevados, o que se deve também a atrasos nas reformas estruturais na área fiscal. A influência dos erros de previsão era “parcial”, não explicando todos os desvios, e actuava mais do lado da despesa (porque mexia no rácio de despesa sobre o PIB) do que na receita – um caso diferente do verificado em Portugal, onde o desvio na receita de cerca de 3 mil milhões de euros foi o problema crucial no incumprimento da meta original de 4,5% fixada para o défice. O risco de desenho e de execução dos programas leva a que 58% dos programas analisados apresentem desvios orçamentais face ao planeado. A admissão de erros por parte do FMI na subestimação dos multiplicadores, está a gerar polémica entre economistas e poder político. “Na medida em que diz que se enganou, [o FMI] diz também que todos os outros se enganaram”, aponta o líder do campo antiausteridade Paul Krugman na coluna de há dois dias no “The New York Times”. Em Portugal, a discussão sobre multiplicadores levou a debate intenso entre PS e o ministro das Finanças, com Vítor Gaspar a desvalorizar a aplicação do problema a Portugal".
