sexta-feira, outubro 09, 2009

Opinião: em defesa da liberdade de imprensa

"Porque não estou habituado, foi maravilhoso ver tantos rostos juntos. Abarquei com o olhar, no sábado 3 de Outubro, as centenas de milhares de pessoas que em Roma, na Praça do Povo, decidiram manifestar-se pela liberdade de informação, demonstrando que Itália defende a sua ‘honra’ — palavra demasiadas vezes usurpada pelas máfias — e que defende a honra daqueles que caíram pela liberdade de imprensa. Muitos perguntarão como é possível que em Itália, hoje, sejam necessárias manifestações pela liberdade de imprensa. Entre nós é verdade que ela não está comprometida como sucede na China, em Cuba, na Birmânia ou no Irão. E no entanto, hoje quem decidir em Itália exprimir uma crítica contra o governo ou contra o primeiro-ministro sabe que poderá ter contra si não uma opinião oposta, mas uma campanha que visa o descrédito total de quem a pronunciar. Qualquer voz crítica sabe que poderá esperar retaliações. Sabe que o preço de continuar a fazer perguntas e a exprimir opiniões será o de exigirem a sua pele. Por isso, liberdade de imprensa significa principalmente liberdade de não ter de pedir a demissão, de não ver truncada de um dia para o outro uma carreira profissional por exprimir uma opinião. E disto queria falar abertamente com quem não está de acordo, com quem, reconhecendo-se como centro-direita, dirá “mas que querem agora, quando foram vocês os primeiros a ter arrastado o confronto político para o terreno das questões privadas, erigindo-se em juízes morais?” Mas a questão é tudo menos moral. A responsabilidade pedida às instituições não é a mesma que deve ter quem escreve, faz perguntas, exerce a sua profissão. Não se fazem perguntas em nome da superioridade moral. Fazem-se perguntas em nome do nosso trabalho e da possibilidade de interrogar a democracia. Um jornalista representa-se a si próprio, um ministro representa a República. A democracia funciona no momento em que os papéis de ambos são respeitados. Não é sobre a escolha de como vive que um político deve responder ao seu país. Porém, quem desempenha papéis institucionais torna-se passível de chantagem, e é a este nível, em termos de garantias pelas acções a executar unicamente no interesse do Estado, que quem exerce um cargo público é chamado a prestar contas da sua vida. A chantagem a que pode ser sujeito um político — e todo o barulho que daí deriva — é ainda mais perigosa num país como a Itália, que vive há muito uma situação anómala que a torna mais frágil do que as outras democracias ocidentais. Em 2003 John Kerry, então candidato à Casa Branca, apresentou ao Congresso americano um documento com o título “The New War”, onde indicava as três Mafias italianas como três dos cinco elementos que condicionam o mercado livre, quantificando em 110 mil milhões de dólares anuais a quantidade de dinheiro que as máfias reciclam na Europa. A Itália é o segundo país do mundo com mais pessoas sob protecção, depois da Colômbia. São cerca de duzentos os jornalistas intimidados e ameaçados pelos seus artigos. Muitos deles têm hoje protecção policial. E é em nome da liberdade de informação que o Estado os protege. Partilho o destino destas pessoas, em grande parte desconhecidas da opinião pública, e sei como podem ser perigosos os mecanismos da difamação e da chantagem.
Nestes anos tive muita solidariedade de pessoas do centro-direita. E aquilo que hoje me pergunto é: mas será que os eleitores do centro-direita querem realmente tudo isto? Será que se sentem efectivamente tranquilos quando os ataques contra os seus adversários assumem a forma de invasão da sua esfera privada? Conheço uma tradição de conservadores que nunca teria aceite um tal desvio às regras. E é aqui que faz sentido a manifestação pela liberdade de informação, que faz sentido fazê-la, acima de tudo em nome daqueles que em Itália e no mundo pagaram com a vida por terem servido uma informação livre. Em nome de Christian Poveda, morto recentemente em El Salvador por ter realizado uma reportagem sobre o maras, o feroz gangue da América Central que é charneira do grande narcotráfico entre o sul e o norte do continente. Em nome de Anna Politkovskaya e de Natalya Estemirova, assassinadas na Rússia pela sua batalha sobre a Tchetchénia. Em nome de Peppino Impastato, Giuseppe Fava e Giancarlo Siani, suprimidos pela Mafia e pela Camorra, e difamados antes e depois da sua morte. Porque num qualquer país democrático não sucede que a expressão de uma opinião sobre o que acontece signifique ter de pagar com a própria alma, o próprio corpo, o próprio sangue. Isto é liberdade de imprensa
" (artigo de Roberto Saviano, publicado no Expresso, com a devida vénia)

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