sábado, abril 05, 2014

Opinião: “Durão: um cúmplice com provas”



“Depois de custos de pelo menos sete mil milhões de euros, que saíram do bolso dos contribuintes, sem nenhuma condenação entretanto e com inqualificáveis prescrições à vista, o BPN é sempre um tema quente. Que queima quem nele toca. Mesmo quando parece estar em fase de rescaldo, basta um pequeno sopro para o atiçar. Mais do que isso, temos o fogo de novo ateado e sem controlo. Durão Barroso, sabendo dos perigos, arriscou ser incendiário. Chamuscou quem quis atingir, é certo. Mas foi ele quem acabou por ficar mais queimado. A decisão de reacender o tema BPN, colocando-o como ponto central de uma entrevista em que nem sequer foi questionado sobre ele, é tão claro como o timing escolhido para falar aos portugueses e os objetivos com que o fez. A seis meses de deixar de ser presidente da Comissão e tendo percebido pelas sondagens que jamais será um novo D. Sebastião para os portugueses, tratou-se de fazer prova de vida. De se posicionar no terreno do jogo político. De mostrar ao País que pode ser um bom pivô. O que tanto convence Merkel e está ao lado dos países pobres, como o que defende os grandes consensos. O que até dá ralhetes ao Governo pelo excesso de austeridade, ainda que apoiando as políticas de Passos, o líder do partido que sabe que apoiaria a sua candidatura presidencial. Entre fintas e caneladas aos adversários, passando por entradas a pés juntos aos seus próprios ex-ministros, aquilo que vimos foi o José Manuel europeu voltar a transformar-se no Durão Barroso de há dez anos. Com outras ambições.
É aqui que entra o BPN. E a não ser que o caso encerre um mistério ainda maior do que o vergonhoso crime financeiro que todos já conhecemos, Durão só pode ter ido repescar às anotações diárias dos seus caderninhos as reuniões que teve com Constâncio em 2003 e 2004 por três motivos. Um é tentar afastar-se o maior possível de um caso que envolve a sua família política e muitos que lhe eram próximos. O outro é fazê-lo invertendo as responsabilidades partidárias, colando o PS ao escândalo, através das falhas de Vítor Constâncio enquanto supervisor, mesmo que isso signifique, uma vez mais, atacar o polícia e não fazer nada para punir o ladrão. E o terceiro pode ser mesmo o de anular à partida quaisquer planos presidenciais que passem pela cabeça do vice do BCE...
Constâncio, é preciso dizê-lo, caiu na esparrela. Quem tem necessidade de dar justificações já está a perder. Fazê-lo de forma voluntarista e sem os auxiliares de memória de Durão pior ainda. Os factos são claros: entre os primeiros boatos sobre o BPN nos bastidores, as notícias públicas e as conversas em São Bento agora conhecidas passaram pelo menos quatro anos até o Banco de Portugal atuar. Mas isso já se sabia: uma das comissões de inquérito tinha posto as datas na coisa. O que ficámos agora a saber é que ele não foi o único a não fazer nada. O então primeiro-ministro, que tinha preocupações suficientes com o problema para convocar por três vezes o governador do Banco de Portugal, também assobiou para o lado. O que o torna, no mínimo, cúmplice. Até porque guardou provas.
Os salários dos polícias
As notícias sobre casos nas polícias sucedem-se. E entre os casos graves de corrupção, envolvendo um inspetor da PJ, ou o caricato do agente da PSP que tem de fazer striptease para ganhar mais uns cobres, ninguém discute o problema a montante. Porque o que está aqui em causa é que quem está disposto a dar a vida pela segurança dos cidadãos não pode ganhar uma média de mil euros por mês. Nem pode ficar sem os míseros euros a mais do subsídio de fardamento. Nem pagar quando rasga o casaco ou perde o boné. Muito menos quando risca o carro a estacionar. Os polícias, qualquer que seja a sua força, não são funcionários públicos iguais aos outros. Não podem invadir as escadas do Parlamento. Mas também não podem ser deixados à mercê de ceder à tentação de uma qualquer nota de cem. Porque muitos não o fazem por falta de carácter (que os há). Fazem-no por necessidades de sobrevivência.
A teia de Amado
A questão dos salários dos políticos também deve ser um tema de discussão. São cada vez menos as figuras de destaque disponíveis para se dedicarem à causa pública por dever de cidadania. E isso tem levado à degradação da qualidade da política e ao seu descrédito. Porque não se ganha muito dinheiro na política. Ganha-se depois dela. Com o poder e as relações que se conquistaram. Pelo que a política se arrisca a tornar-se um mero trampolim de ambições. Veja-se só o último exemplo: Luís Amado. Saltou de ministro dos Negócios Estrangeiros para a liderança do Banif. Para salvar o banco foi bater à porta da Guiné Equatorial, com a qual estabelecera relações diplomáticas quando estava no Governo. Para receber os milhões do país que nem português fala apoiou a sua entrada na CPLP. E agora aceitou mesmo ser intermediário de Obiang na cimeira em Timor que vai levar o tema a discussão. São relações perigosas. A que ninguém quer pôr fim.
A publicidade a Seguro
O cheiro a poder causa, de facto, uma enorme atração. Ao mesmo tempo que nas sondagens o PS começa a disparar para as legislativas de 2015 e que todos já perceberam que as europeias não podem deixar de punir o atual Governo (sobretudo depois de se perceber que o conceito de temporário pode ter o tempo que se quiser), Seguro volta a ganhar protagonismo. Entre os elogios inesperados de Alegre e as conspirações que agora já não se fazem nos sótãos de algum socialista mas à mesa de bons restaurantes, o líder da oposição está a marcar pontos. Qualquer especialista sabe que não há má publicidade. E Seguro voltou a pôr toda a gente a falar dele”! (texto de FILOMENA MARTINS, DN deLisboa, com a devida vénia)