"Prosseguindo com esta minha
reflexão, obviamente que enquanto militante do PSD, tenho acompanhado a
evolução, quase quotidiana, do que se vai passado no partido, lamentando apenas
que discussões que interessam aos seus militantes - porque são os filiados que
vão fazer escolhas e decidir quando forem chamados a isso, e mais ninguém -
estejam sistematicamente a ser trazidas para a praça pública, com todo o
desgaste que isso acarreta. Não julguem as pessoas que o simples facto de haver
uma discussão na praça pública sobre a situação e/ou os desafios que se colocam
a qualquer partido político, seja ele o PSD ou outro, isso representa
imediatamente uma mais-valia com consequentes ganhos políticos e eleitorais
futuros. Nada mais errado. A excessiva exposição, a presença de um partido, por
tudo e por nada, na comunicação social, como se a política tivesse que ter como
arena a comunicação social e não o seu espaço próprio, penalizam e não se
recomendam.
Olho para tudo isto com
despreendimento mas desconfiando que se estarão a cometer erros, de avaliação e
políticos, de todas as partes, que podem penalizar ainda mais o PSD regional e
fragilizá-lo, naquele que é um dos momentos mais difíceis da sua história. A
conjuntura presente, caracterizada por uma aguda crise social, económica e
financeira regional e nacional, tem tido inevitáveis e graves impactos entre
nós, os quais são a causa de muitas situações negativas que afastam as pessoas
da política e dos partidos e consolidaram a frustração e a desilusão social.
Atendendo a tudo o que se tem passado nestes últimos dois a três anos,
recomendaria cautelas redobradas, mais discrição e reforçada contenção, algo
que claramente não está a ser observado.
Tenho a consciência de que os
tempos são hoje substancialmente diferentes daqueles que caracterizavam a
realidade social, económica e política nos anos setenta, quando o PSD da
Madeira deu os primeiros passos nesta longa caminhada autonómica. Uma realidade
muito diferente daquela que caracterizou as décadas seguintes, e particularmente
o ano de 2007, quando nas eleições regionais então realizadas - na sequência de
uma das maiores e mais vergonhosas roubalheiras perpetradas contra a Região e
os madeirenses pela então governação socialista de Sócrates - o PSD madeirense
conseguiu o seu melhor resultado eleitoral de sempre.
Na altura escrevi, e alguns até
me criticaram por isso, chamando a atenção para o carácter excecional e
irrepetível destes resultados que podiam alimentar fantasias e espalhar
ilusões, distorcendo perigosamente a realidade. Os madeirenses quiserem
sobretudo penalizar os responsáveis, votando contra os mentores e cúmplices silenciosos
de decisões que custaram milhões à Madeira, patifaria que hipocritamente hoje
tentam esconder.
O PSD da Madeira não pode fugir
ao seu destino e, seja ele qual for, ninguém o pode condicionar ou manipular.
Mas o poder de decisão reside nos filiados e apenas neles, de nada valendo as
campanhas e as pressões feitas de fora para dentro, na tentativa de
confundirem, distorcerem, omitirem, deturparem, enfim, de criarem um cenário de
ficção e de absoluta confusão.
A primeira coisa que é preciso
afastar, rapidamente, é a ideia de que estamos reféns de uma espécie de ajuste
de contas interno que não faz qualquer sentido. Pelo contrário, desestabiliza e
desacredita, penalizando-nos a todos e desiludindo aqueles que são a base
eleitoral do PSD regional. Os tempos não se compadecem com isso, nem as pessoas
mudam as suas opções por causa do espetáculo promovido para fins mediáticos. O
PSD regional não vai acabar em 2014 com as “diretas”. O partido vai continuar
depois disso, com vida própria, com novos protagonistas, novas ideias, mas a
mesma ideologia, o mesmo programa e os mesmos objetivos políticos. A segunda
ideia a reter é a de que o PSD regional precisa de encontrar a estabilidade
interna rapidamente, num quadro de diálogo, de respeito e de tolerância pelas
opiniões diferentes que cada militante tenha. A liberdade é isso mesmo,
respeitar e ser respeitado. Essa estabilização não se consegue enquanto
persistir esta estranha teoria, diria mesmo algo macabra, de que se faz
política na comunicação social, promovendo a instabilidade e a confusão, porque
quem assim se comporta julga que só se ganha a desejada notoriedade em função
das vezes que se aparece nos jornais ou que só conseguem votos dos militantes em
função da amplitude das críticas e das exigências veiculadas através da
comunicação social.
Tenho a esperança, porque não
acredito num suicídio coletivo, que as bases do PSD regional vão acabar com
isto – não estou a falar na liberdade interna, na diversidade de opiniões, nos
direitos e deveres dos filiados, na discussão, na troca de ideias quanto a um
futuro que temos todos que garantir com pragmatismo, verdade e humildade. Tal como
tenho a esperança que as decisões serão tomadas não por causa dos jornais, das
televisões ou das redes sociais, mas com base em programas de acção que a seu
tempo terão que ser apresentados e discutidos e em função dos quais espero que
os militantes façam as suas escolhas.
Repito, o que ao PSD da Madeira
está reservado, o que o tempo e a política lhe vão desafiar até 2015, será
incontornável, apesar de todas as dúvidas que naturalmente possam existir, independentemente
do facto de desconfiar que há cenários que poderão não ser tão plausíveis como
parecem. Espeto que o tempo me dê razão.
Um partido cuja referência
ideológica é Francisco Sá Carneiro não pode andar a pisar o risco vermelho que
representa o legado do seu falecido líder. Um partido que foi fundado e
liderado por Sá Carneiro não se pode renegar a si próprio, não pode ignorar os
seus valores essenciais, não pode abandonar a sua matriz ideológica sem
espezinhar a sua história. O PSD de Sá Carneiro, que não tem nada a ver com o
PSD hoje entregue a Passos Coelho e restante corja, não se pode confundir com
“praxis” que na realidade são característica dos partidos fracos e sem
conteúdo.
Nestes tempos de mudança,
sobretudo de protagonistas – todas as mudanças de ciclo implicam isso mesmo -
não podemos pensar numa mudança destinada a deixar tudo na mesma, tanto mais
quando os últimos resultados eleitorais constituíram alertas importantes que
não podem ser desvalorizados. Não vamos conseguir chamar mais gente, fechando
as portas, não podemos partir para um tempo novo, parando no tempo ou alimentando
saudosismos. Pessoalmente sei que o meu tempo, enquanto dirigente partidário -
que não enquanto militante de base num partido que não é, não pode ser nem
nunca foi elitista - corre apressado para o seu fim. Há sempre um tempo para
tudo. Não alimento qualquer ambição, pese o facto de estar sempre, estarei sempre,
disponível para opinar ou colaborar se o considerarem útil ou necessário. (JM)