quinta-feira, fevereiro 13, 2014

Opinião pessoal: Reflexão (2)

"Parece-me óbvio, e as pessoas percebem isso, que esta reflexão se destina a ser partilhada sobretudo com os militantes, simpatizantes e eleitores do PSD da Madeira, apesar de se tratar de uma matéria cujo interesse extravasa as fronteiras próprias do partido em questão. Esta minha reflexão, meramente pessoal, pretende também desmistificar, tanto quanto possível, a teoria - que não passa disso mesmo – construída com base num despropositado e desajustado "endeusamento" de pessoas, só porque estão desalinhadas relativamente à atual liderança do PSD regional. De facto, bem se tenta vender a ideia de que todos aqueles que publicamente se demarcarem de Alberto João Jardim, são automaticamente promovidos a uma espécie de heróis de barro, colocados por um tempo efémero num perigoso patamar da lisonja fácil, tão efémero que nem eles percebem isso. Essa “promoção” cresce na proporção da crítica a Jardim e à sua liderança presente.
Isto nada tem a ver, obviamente, com a constatação de que caminhamos todos, a sociedade em geral, as famílias e as empresas, e também os partidos, para um novo ciclo, a todos os níveis, que exige mudanças profundas e que não se compadece com qualquer forma de acomodamento, não tolera oportunismos saloios, não reconhece as habilidades de quem quer estar a bem com todos, o tal milagre de ter um pé em cada margem do rio, e que é incompatível com a petrificação dos partidos e dos políticos à volta de procedimentos, métodos e comportamentos que podem ter feito sentido e tiveram lógica passada, mas que hoje, por fatores vários, deixaram de constituir a resposta adequada.
Um partido não é propriamente uma bandalheira, tem regras próprias, tem estatutos, tem regulamentos, não pode ser um mau exemplo numa democracia livre mas que se quer também legitimada e devidamente estruturada. A ideia de que um partido pode ser tudo, conforme as circunstâncias ou as conjunturas, mais ou menos uma espécie de panelão onde cabem todos os ingredientes, tem que ser desmontada. É demagogia da mais desprezível.
Para que não restem dúvidas, reafirmo que as prioridades políticas, neste momento e nesta conjuntura de crise social e económica profunda – e que por isso mesmo penalizará sempre o PSD regional, seja quem for o seu líder, porque há muitas medidas impopulares repetidamente tomadas a nível nacional, que tiveram graves impactos sociais também na Madeira, sobretudo no domínio do chamado estado social - são a Madeira, os interesses e o bem-estar dos Madeirenses e a estabilidade do partido. Não contem comigo para entrar em "carruagens" de maledicência só porque é chique ou porque se ganha espaço mediático na comunicação social ou nas redes sociais.
Fazendo parte de um partido, e enquanto fizer parte de um partido, desejo que ele tenha responsabilidades e se afirme como uma estrutura de massas e de liderança, capaz de corresponder ao que dele esperam as pessoas que acreditam no seu programa, na sua ideologia ou na sua bandeira. Não quero que o meu partido seja atirado para a valeta e que por lá se arraste, penosamente, durante sabe-se lá quanto tempo, só porque alguns, por cauda da acumulação de erros políticos e de avaliações precipitadas e graves, acabaram por funcionar mais como coveiros do que como revitalizadores e renovadores. Admito que não o façam propositadamente, mas temos que reconhecer que os efeitos de alguns erros políticos primários acabam por ser penosos e podem não só fazer ruir o percurso político de pessoas que se julgam detentoras de capital pessoal - que podem não ter – passível de legitimar a aspiração a uma carreira política que não se compadece com estas inabilidades. Há situações em que os erros se pagam muito caro, e quando a conjuntura, como é o caso presente, é desfavorável para políticos e partidos, sem exceção, podemos ser confrontados com o esfrangalhar eleitoral e político de um partido. Não creio que a imagem de um partido derrotado, dividido em tendências ou fações, relegado para uma posição minoritária, ou que, a exemplo dos Açores, seja atirado para a oposição e obrigado a uma penosa “travessia do deserto”, seja a sina recomendável e desejada pelo PSD madeirense. Seria grave, muito grave, se se viesse a perceber da existência de histórias mal contadas.
Mais, penso que todos aqueles que agora andam tão aceleradamente sedentos de uma disputa do poder, nessas circunstâncias seriam os primeiros a esconder-se no bote salvas-vidas. A ambição desmedida pode esconder a hipocrisia. Os tempos não são nem para a demagogia fácil nem para o desfilar piroso de vaidades pessoais. Os madeirenses dispensam vedetismos e convencimentos. Mas isso não impede que os partidos discutam internamente, dialoguem – há tanta fata de diálogo… - troque ideias, das bases ao topo, olhem para o futuro de forma construtiva mas também inovadora, abram-se a um novo ciclo que inevitavelmente, repito, inevitavelmente, vai acontecer na política nacional e regional. Não duvidemos disso.
O que faltava ao PSD regional era confrontar-se, usando uma imagem conhecida, com uma espécie de reedição do que se passou com o proprietário do barco no filme Titanic. Quando o navio, que todos diziam estar imune a ameaças ou aos perigos que o mar escondia, começou a afundar-se depois de ter embatido num inesperado iceberg surgido na sua rota, aquele que garantia que nada disso podia acontecer porque jurava máxima segurança do navio, o dono, foi o primeiro, sorrateiramente, a esconder-se num salva-vidas, deixando para trás mulheres, crianças e idosos. Porque acaba de acontecer um quadro dramático e real que ele dizia ser inimaginável.
Não podemos ser demasiado ingénuos nesta fase. Politicamente o PSD, tal como o CDS, estão fragilizados aos olhos dos eleitores sem esperança. Não há volta a dar. Enquanto esta austeridade bandalha se mantiver a estes níveis, enquanto persistirem estes roubos e cortes nas pensões e salários, enquanto não for invertida uma asquerosa e porca carga fiscal, das mais escandalosas roubalheiras da Europa, enquanto os idosos continuarem a ser perseguidos e olhados como um ónus numa sociedade tão liberal, tão liberal mesmo que chegar a roçar o fascismo mais nojento, enquanto os funcionários públicos continuarem a ser apontados como as "ovelhas" negras desta crise, o PSD e o CDS serão penalizados. E nada lhes consegue valer. Penalizados ou pela abstenção, sobretudo por ela, ou pelos votos na oposição por parte dos eleitores flutuantes, uma massa eleitoral que não tem nenhum vínculo eleitoral permanente com qualquer partido, e que vota em cada momento em função da conjuntura e dos seus interesses e da dimensão da satisfação ou da frustração. O resto é música!" (JM)