"Parece-me óbvio, e as pessoas percebem isso, que esta reflexão se
destina a ser partilhada sobretudo com os militantes, simpatizantes e eleitores
do PSD da Madeira, apesar de se tratar de uma matéria cujo interesse extravasa
as fronteiras próprias do partido em questão. Esta minha reflexão, meramente
pessoal, pretende também desmistificar, tanto quanto possível, a teoria - que
não passa disso mesmo – construída com base num despropositado e desajustado
"endeusamento" de pessoas, só porque estão desalinhadas relativamente
à atual liderança do PSD regional. De facto, bem se tenta vender a ideia de que
todos aqueles que publicamente se demarcarem de Alberto João Jardim, são
automaticamente promovidos a uma espécie de heróis de barro, colocados por um
tempo efémero num perigoso patamar da lisonja fácil, tão efémero que nem eles
percebem isso. Essa “promoção” cresce na proporção da crítica a Jardim e à sua
liderança presente.
Isto nada tem a ver, obviamente, com a constatação de que caminhamos
todos, a sociedade em geral, as famílias e as empresas, e também os partidos,
para um novo ciclo, a todos os níveis, que exige mudanças profundas e que não
se compadece com qualquer forma de acomodamento, não tolera oportunismos saloios,
não reconhece as habilidades de quem quer estar a bem com todos, o tal milagre
de ter um pé em cada margem do rio, e que é incompatível com a petrificação dos
partidos e dos políticos à volta de procedimentos, métodos e comportamentos que
podem ter feito sentido e tiveram lógica passada, mas que hoje, por fatores
vários, deixaram de constituir a resposta adequada.
Um partido não é propriamente uma bandalheira, tem regras próprias, tem
estatutos, tem regulamentos, não pode ser um mau exemplo numa democracia livre
mas que se quer também legitimada e devidamente estruturada. A ideia de que um
partido pode ser tudo, conforme as circunstâncias ou as conjunturas, mais ou
menos uma espécie de panelão onde cabem todos os ingredientes, tem que ser
desmontada. É demagogia da mais desprezível.
Para que não restem dúvidas, reafirmo que as prioridades políticas,
neste momento e nesta conjuntura de crise social e económica profunda – e que
por isso mesmo penalizará sempre o PSD regional, seja quem for o seu líder,
porque há muitas medidas impopulares repetidamente tomadas a nível nacional,
que tiveram graves impactos sociais também na Madeira, sobretudo no domínio do
chamado estado social - são a Madeira, os interesses e o bem-estar dos
Madeirenses e a estabilidade do partido. Não contem comigo para entrar em
"carruagens" de maledicência só porque é chique ou porque se ganha
espaço mediático na comunicação social ou nas redes sociais.
Fazendo parte de um partido, e enquanto fizer parte de um partido,
desejo que ele tenha responsabilidades e se afirme como uma estrutura de massas
e de liderança, capaz de corresponder ao que dele esperam as pessoas que
acreditam no seu programa, na sua ideologia ou na sua bandeira. Não quero que o
meu partido seja atirado para a valeta e que por lá se arraste, penosamente,
durante sabe-se lá quanto tempo, só porque alguns, por cauda da acumulação de
erros políticos e de avaliações precipitadas e graves, acabaram por funcionar
mais como coveiros do que como revitalizadores e renovadores. Admito que não o
façam propositadamente, mas temos que reconhecer que os efeitos de alguns erros
políticos primários acabam por ser penosos e podem não só fazer ruir o percurso
político de pessoas que se julgam detentoras de capital pessoal - que podem não
ter – passível de legitimar a aspiração a uma carreira política que não se
compadece com estas inabilidades. Há situações em que os erros se pagam muito
caro, e quando a conjuntura, como é o caso presente, é desfavorável para
políticos e partidos, sem exceção, podemos ser confrontados com o esfrangalhar
eleitoral e político de um partido. Não creio que a imagem de um partido
derrotado, dividido em tendências ou fações, relegado para uma posição
minoritária, ou que, a exemplo dos Açores, seja atirado para a oposição e
obrigado a uma penosa “travessia do deserto”, seja a sina recomendável e
desejada pelo PSD madeirense. Seria grave, muito grave, se se viesse a perceber
da existência de histórias mal contadas.
Mais, penso que todos aqueles que agora andam tão aceleradamente
sedentos de uma disputa do poder, nessas circunstâncias seriam os primeiros a
esconder-se no bote salvas-vidas. A ambição desmedida pode esconder a
hipocrisia. Os tempos não são nem para a demagogia fácil nem para o desfilar
piroso de vaidades pessoais. Os madeirenses dispensam vedetismos e
convencimentos. Mas isso não impede que os partidos discutam internamente,
dialoguem – há tanta fata de diálogo… - troque ideias, das bases ao topo, olhem
para o futuro de forma construtiva mas também inovadora, abram-se a um novo
ciclo que inevitavelmente, repito, inevitavelmente, vai acontecer na política
nacional e regional. Não duvidemos disso.
O que faltava ao PSD regional era confrontar-se, usando uma imagem
conhecida, com uma espécie de reedição do que se passou com o proprietário do
barco no filme Titanic. Quando o navio, que todos diziam estar imune a ameaças
ou aos perigos que o mar escondia, começou a afundar-se depois de ter embatido
num inesperado iceberg surgido na sua rota, aquele que garantia que nada disso
podia acontecer porque jurava máxima segurança do navio, o dono, foi o
primeiro, sorrateiramente, a esconder-se num salva-vidas, deixando para trás
mulheres, crianças e idosos. Porque acaba de acontecer um quadro dramático e
real que ele dizia ser inimaginável.
Não podemos ser demasiado ingénuos nesta fase. Politicamente o PSD, tal
como o CDS, estão fragilizados aos olhos dos eleitores sem esperança. Não há
volta a dar. Enquanto esta austeridade bandalha se mantiver a estes níveis,
enquanto persistirem estes roubos e cortes nas pensões e salários, enquanto não
for invertida uma asquerosa e porca carga fiscal, das mais escandalosas
roubalheiras da Europa, enquanto os idosos continuarem a ser perseguidos e
olhados como um ónus numa sociedade tão liberal, tão liberal mesmo que chegar a
roçar o fascismo mais nojento, enquanto os funcionários públicos continuarem a
ser apontados como as "ovelhas" negras desta crise, o PSD e o CDS
serão penalizados. E nada lhes consegue valer. Penalizados ou pela abstenção,
sobretudo por ela, ou pelos votos na oposição por parte dos eleitores
flutuantes, uma massa eleitoral que não tem nenhum vínculo eleitoral permanente
com qualquer partido, e que vota em cada momento em função da conjuntura e dos
seus interesses e da dimensão da satisfação ou da frustração. O resto é
música!" (JM)