“Bem tenho eu esfalfado os dedos a pedir uma saída cautelar, tutelada,
ou o que seja, que não deixe à solta o pessoal cá do sítio. Ora bem, o FMI
percebeu que a gente da nossa terra já andava em roda-viva a falar de baixar
impostos e aumentar salários e deu uma cacetada valente nas nossas cabeças,
tipo carolo que os professores primários pré-modernos davam nos miúdos mal
comportados. E avisou o ponderado FMI que despesismo e descidas de impostos
eleitoralistas são interditos. Portas engoliu em seco.
Depois veio a Europa dizer que os salários portugueses para estarem
bons, mas mesmo bons, deviam baixar ainda cerca de 5%. Passos e Seguro devem
ter engolido em seco.
No meio de tudo isto, acaba-se a festa antes mesmo de começar. Por mim
está bem, além de não confiar nem um bocadinho nestes milagres, além de saber
que ainda temos crise para muitos anos - em Portugal e na Europa toda -
sustento que a mudança que estamos a viver por todo o mundo obrigará a
equilíbrios precários para os quais é necessária muita prudência.
Este Governo pensava que se safava em 2015. Certas pessoas na Oposição
pensavam que em 2015 já podiam estar safos. Nem uns nem outros acertaram.
Talvez, deste modo, em vez das promessas de 'bacalhau a pataco' (como se dizia em finais do séc. XIX)
possamos ter debates sérios sobre o nosso papel na União Europeia e no mundo;
sobre o papel da Europa no mundo globalizado e sobre as reformas que
precisamos, enquanto país, de fazer para nos adaptar a estas novas realidades”
(texto de Henrique Monteiro, Expresso,com a devida vénia)