quarta-feira, fevereiro 12, 2014

Futebol: Geração desconhecida



“Marcos Lopes trocou o Benfica pelo Manchester City aos 15 anos e começa agora a despontar entre Agüero, Yaya Touré e companhia. Bruno Fernandes saiu aos 17 do Boavista para o Novara e um ano depois a Udinese pagou 2,5 milhões de euros para o ter. O 'viveiro' de talentos português é cada vez mais apreciado lá fora e alimenta as principais Ligas da Europa
Marcos Lopes chegou a Portugal com quatro anos. Nascido em Belém, no estado brasileiro do Pará, mudou-se com a família para Vila Nova de Poiares, no distrito de Coimbra. E foi ali, no clube da nova terra, que se iniciou no futebol, até aos 10 anos ingressar nas camadas jovens do Benfica. Já após a estreia na Selecção nacional, aos 15 deu o salto para o Manchester City e agora, três anos depois, joga ao lado de estrelas como Agüero, Yaya Touré ou David Silva. Vem aí mais um grande talento do futebol português, desta vez com genes brasileiros e africanos à mistura.
Rony, como é mais conhecido no meio, é filho de pai brasileiro e mãe angolana com nacionalidade portuguesa. Não tem dúvidas: diz sentir-se mais português e é a camisola das quinas que pretende continuar a vestir.
Em 2011, o Manchester City não hesitou em pagar uma verba astronómica para a idade, a rondar o milhão de euros, pela jovem promessa. Os primeiros frutos começam a aparecer. Depois de já ter sido o jogador mais novo de sempre a marcar um golo pela equipa principal do clube - na estreia, em Janeiro de 2013, ao fim de três minutos em campo frente ao Watford, para a Taça de Inglaterra -, foi escolhido como 'homem do jogo' no triunfo da semana passada sobre o West Ham (3-0), nas meias-finais da Taça da Liga inglesa.
“O Marcos é um jovem jogador com grande futuro”, exultou o treinador Manuel Pellegrini sobre o médio esquerdino, a quem tinha acabado de dar a primeira oportunidade como titular.
Rony, que já na temporada anterior havia sido chamado por Roberto Mancini para fazer a pré-época nos seniores, é um dos jovens portugueses a dar cartas em clubes das principais ligas da Europa, como também acontece em Espanha e Itália. A vantagem de aliar qualidade técnica a uma capacidade de trabalho exemplar faz do capitão dos sub-21 um modelo a seguir no Manchester City.
“Na época passada, vi o Marcos ser chamado ao treino da equipa principal enquanto treinava com a equipa de talentos. Quando acabou, voltou ao treino dos mais jovens. E depois todos os seus companheiros foram tomar banho e almoçar e o Marcos foi para o ginásio. Este é o nível de determinação e compromisso que os miúdos têm de perceber para terem sucesso neste clube”, contou ao Daily Mail Mark Allen, director da academia do City, num artigo em que criticava a falta de empenho dos jovens jogadores ingleses.
Perante a declarada aposta do clube no médio português, um dos seus empresários, o dinamarquês Mikkel Beck, diz ao SOL ser “praticamente impossível definir o actual valor de mercado” do jogador que representa. “Se um clube não quer vender, não há mercado”, corta a direito, sublinhando que, além das “capacidades técnicas e físicas impressionantes, o Marcos sempre foi muito maduro no seu discurso e na atitude perante o futebol”.
A chamada à Selecção A está no horizonte de Rony, mas Mikkel Beck não acredita que seja a tempo do Mundial deste ano. “O seleccionador português já tem um grupo sólido constituído, por isso as probabilidades de o Marcos ir ao Brasil são reduzidas. Mas acredito que muito em breve se vá estrear e assim concretizar um dos seus maiores desejos”.
Beck, que foi internacional pela Dinamarca, trabalha em parceria com o empresário português Pedro Charana, o que ajuda a explicar o facto de ter na sua carteira de clientes vários jovens dos escalões de formação do FC Porto, Benfica, Sporting, Sp. Braga, Rio Ave e Académica. O 'viveiro' de talentos português é apreciado lá fora e a tendência aponta para os clubes europeus recrutarem cada vez mais cedo.
Foi o caso do Novara, que no Verão de 2012 'pescou' Bruno Fernandes nos juniores do Boavista. O médio criativo, natural da Maia, era para integrar a equipa de sub-20, mas depressa foi resgatado para a principal e ainda fez 23 jogos na 2.ª Divisão italiana. Chamaram-lhe 'Maradona de Novara', pelos dotes técnicos do seu pé esquerdo, e a Udinese, sempre atenta aos jovens promissores, contratou-o por 2,5 milhões de euros para a actual temporada. Aos 19 anos, Bruno já foi utilizado em nove jogos da 1.ª Divisão e estreou-se a marcar em Dezembro, no empate com o Nápoles (3-3).
Em Itália segue também Pedro Mendes, de 23 anos, formado no Sporting e em tempos lançado por José Mourinho num jogo da Liga dos Campeões do Real Madrid. Há seis meses, o defesa deixou o clube de Alvalade em fim de contrato e assinou a custo zero pelo Parma, onde fez seis jogos antes de rumar nesta janela de transferências de Janeiro ao Sassuolo, também do escalão principal, envolvido numa troca de cinco jogadores entre os dois clubes.
Não foi o único central forjado na cantera leonina a mudar de ares no mercado de Inverno: contratado no início da época pelo Liverpool, Tiago Ilori, de 20 anos, foi agora emprestado ao Granada, da 1.ª Divisão de Espanha. Onde também acaba de chegar Rúben Vezo, de 19 anos, proveniente do Vitória de Setúbal e com destino a Valência. Juntam-se a Diogo Figueiras (ex-Paços de Ferreira) e Flávio Teixeira (ex-Académica), que no último Verão ingressaram no Sevilha e no Málaga.
Há ainda outros jovens portugueses com ligação contratual a clubes das ligas mais cotadas, mas que estão a rodar em escalões secundários, como Mesca, irmão de Bruma (vinculado ao Fulham, mas cedido do Crewe), Agostinho Cá (Barcelona/Girona) e Aladje (Sassuolo/Delta Porto Tolle). E também não faltam representantes lusos nos escalões de formação de grandes clubes, do Inter de Milão ao Liverpool, passando pelo Barcelona.
No Málaga joga desde os 10 anos Alfredo Silva, que em 2011 era a estrela dos infantis do Sporting. Mas nenhum clube foi ao extremo do Atlético de Madrid: um vídeo de habilidades na internet levou os espanhóis a contratarem Hugo Pacheco, de apenas oito anos, em Outubro passado. O jornal Marca chamou ao prodígio 'o novo Futre', mas o original discordou: “Fui ver um vídeo do puto e fiquei de boca aberta. 'Futre? Que Futre? O Futre não fazia isto com oito anos. Este menino é uma coisa do outro mundo” (texto do jornalista do Sol, Rui Antunes, com a devida vénia)