A questão dos transportes
no desporto não pode continuar a ser a barafunda que tem sido nestes dois
últimos anos, até porque se trata de um "dossier" demasiado sério
para ser tratado com leviandade. Não sei o que é que foi negociado neste
domínio, se é que alguma coisa foi negociada, depois da entrada da colonialista
troika em Portugal. Não sei se os sopeiros da Alemanha e do capitalismo europeu
mais asqueroso e especulativo fizeram exigências a Lisboa neste processo e se
porventura alguma coisa tem sido mantida escondida da opinião pública.
A recente notícia,
envolvendo desta feita a Federação Portuguesa (?) de Basquetebol - depois do
mesmo ter acontecido com outras federações ditas nacionais - veio colocar em
evidência a anormalidade de uma situação perfeitamente abjecta e que exige uma
intervenção política concreta, de pressão, de denúncia, que não se pode ficar
nem por simples protestos que nada resolvem, nem por denúncias na comunicação
social que muito menos servem seja para o que for. Sabe-se que o Representante
da República, como lhe competia, diga-se em abono da verdade, já terá
solicitado a intervenção do governo de coligação de Lisboa, particularmente do
ministro Marques Guedes que tem sido ao longo dos anos um interlocutor muito
positivo da Madeira e que mantem com Guilherme Silva uma porta permanentemente
aberta que a amizade entre ambos abriu e consolidou ao longo dos anos.
O problema é que o
Representante da República, na minha opinião, devia alterar âmbito do seu pedido
de intervenção do governo de coligação de Lisboa e em vez de se limitar a uma
competição em concreto na modalidade de basquetebol, pugnar, através da
Presidência da República, pela afirmação da necessidade de que esta questão do
transporte das equipas desportivas insulares participantes em provas nacionais
deva ser objecto de uma negociação séria, alargada e pragmática, abrangendo
todas as modalidades, para que situações como estas não se repitam. E
envolvendo, obviamente, também os Açores porque acabam por sofrer dos mesmos
problemas que a Madeira, apesar de possuírem como alternativa a companhia aérea
regional SATA, empresa pública regional, 100% propriedade do Governo Regional,
mas que não acredito esteja disposto a ser uma espécie de "casa de caridade"
do desporto regional açoriano, sem as adequadas compensações financeiras.
Sei que nas Canárias, este
processo continua envolto em confusão e muita polémica, dado que Madrid
introduziu cortes significativos no financiamento das deslocações à metrópole,
pelo que os clubes tiveram que reduzir a dimensão das suas comitivas, o tempo
de estadia em Espanha, sempre que tal for possível, e impor um rigoroso
critério de participação de modalidades e de clubes em provas nacionais, o qual
não se compadece com aquela teoria populista e demagógica que cabem todos
nessas competições, desde que consigam resultados. Não cabem não. Estamos a
falar, cá como em Canárias, de um novo ciclo desportivo, depois de um primeiro
marcado pela aposta ma massificação da sua prática e na construção de
infra-estruturas. O governo de Canárias também reduziu drasticamente os apoios
financeiros para as deslocações inter-ilhas, pelo que várias provas regionais
dos calendários oficiais foram postas em causa, alternando com ameaças e
pressões de clubes, alguns deles chegaram mesmo a propor o seu próprio
encerramento.
Repito, o processo
continua aberto, a gerar discussão e polémica e embora tenham sido alcançados
alguns avanços nos últimos dois meses, persiste a procura da solução adequada e
que melhor sirva aquela região espanhola e a sua participação nas provas
desportivas nacionais. Até porque o governo autónomo de Canárias, da
responsabilidade de uma coligação entre o PSOE e os nacionalistas da Coligação
Canárias – o PP ganhou as eleições regionais de 2012 mas foi relegado para a
oposição devido ao acordo de coligação regional, o que também explica as
grandes dificuldades negociais com Madrid… - está também a braços com uma
dívida regional da ordem dos 5 a 7 mil milhões de euros e uma redução progressiva
do financiamento do estado para as comunidades autónomas, pelo que as
disponibilidades financeiras são reduzidas. Obviamente que no caso da Madeira,
penso que haverá muita coisa a fazer, também da parte dos clubes, mas isso não
pode ser feito com recurso a medidas avulsas, muito menos de carácter
persecutório. E embora os clubes de futebol mais representativos, tenham também
nos custos dos transportes o seu “calcanhar de Aquiles”, não podendo por isso
ser postos à margem de uma solução global que venha a ser negociada com Lisboa
e acordada, coloco-os de fora nesta minha apreciação, mais virada para as
modalidades ditas amadoras e nos escalões de futebol mais inferiores.
Estamos
perante uma atitude colonialista e anti europeia, na medida em que contraria o
primado europeu da coesão territorial. Por isso, a persistir este acto de
colonialismo retrógrado segregacionista, que em meu entender transcende muito
para além disso, a Madeira deve passar imediatamente ao ataque em sua defesa e
dos seus clubes e atletas. Como? Desde logo apresentando uma pormenorizada e
bem fundamentada queixa à Comissão Europeia, denunciando esta atitude
persecutória e anti-coesão nacional e europeia, pedindo a sua intervenção junto
de Lisboa. Mas a RAM deve imediatamente dar conhecimento da sua iniciativa às
demais regiões europeias devidamente reconhecidas como tal, particularmente as
insulares, à própria UEFA e de todos os demais organismos europeus em cujas
modalidades a Madeira tenha equipa envolvidas em competições nacionais e
europeias.
A
ideia seria a de denunciar esta situação escandalosa de discriminação
anti-desportiva e anti-europeista, devendo constar dessa iniciativa de denúncia
a completa inventariação dos atletas por modalidades, dos clubes em actividade,
dos títulos nacionais conquistados, das presenças em provas europeias, dos
custos dos transporte por cada deslocação e denúncia fundada de tratamentos
diferenciados dados pelo governo de Lisboa às equipas nacionais do Continente,
sempre que elas se deslocam à Madeira e aos Açores.
O
ideal seria a negociação de um manifesto reivindicativo conjunto da Madeira,
Açores e Canárias, porventura alargado à Córsega. Sicília, Sardenha e outras
regiões europeias com presenças em competições desportivas nacionais e que, por
estarem mais distantes, assumem custos que as penalizam e às suas instituições
desportivas. Sem uma resposta adequada, envolvente, de denúncia firme,
estaremos confrontados com decisões arbitrárias e as regiões, enquanto elos
mais fracos, estarão sempre vulnerabilizadas, também a este nível, o das
deslocações das suas equipas e dos seus atletas para provas nacionais.