terça-feira, julho 09, 2013

Opinião: PERCEBER PORTAS? (I)

Passadas, ao que tudo indica - o Presidente da República culmina hoje os contatos com os partidos, devendo aceitar a proposta da maioria parlamentar e dar posse a um novo governo - as ondas de choque causadas por uma espécie de crise política, que mais pareceu uma ópera bufa, que pôs a nu a mediocridade de alguns dos mais conhecidos protagonistas da política nacional, parece-me evidente que os cidadãos começam a perceber que o que se passou pode não ter passado de uma jogada política de Portas, de alto risco, devidamente ponderada, mas que acabou por lhe correu bem. Paradoxalmente.
O alegado recuo de Portas irritou, naturalmente, não apenas a esquerda partidária, que não se cansa de berrar em todas as esquinas a reclamar eleições antecipadas, que nada vão resolver, mas também centrais sindicais submissas e desacreditadas, que nunca foram capazes até hoje de conseguir rigorosamente nada de positivo a favor dos trabalhadores, sobretudo em termos de suster o que tem sido a política laboral, social e económica deste governo de coligação. No caso dos funcionários públicos, principais vítimas da política de austeridade absolutamente criminosa em curso, essa incompetência sindical no sector é ainda mais lamentável e reforçadamente ineficaz. E tudo isto acontece apesar do desgaste político e social dos partidos no poder. Contando com a irreversibilidade da decisão de Portas, mas esquecendo que essa decisão sempre se colocou, parece-me, num determinado contexto político-governativo, entretanto alterado, a mudança de atitude, do líder do CDS, depois de um complexo processo negocial, irritou também alguns comentadores televisivos, que de independentes nada têm, e que se mostram sempre ávidos em ampliar cenários transformando-os em desgraças políticas sem correspondência, depois, com a realidade.
Parece-me normal que se procure desvendar o que eventualmente se passou, apesar do silêncio de Portas, considerando para o efeito todos os factos conhecidos, o passado político desta coligação e, atribuindo-lhes a importância que realmente elas têm, determinadas situações recentes, iniciadas com a patética demissão do ex-ministro Gaspar, não pela demissão em si mesma que nos encheu a todos de satisfação e que não incomodou em nada os mercados que nem sequer reagiram, mas pela forma desonesta e asquerosa como o indivíduo a geriu.
É natural que o CDS - e só lamento que o PSD não o tenha feito antes - aproveitando a saída de Gaspar, que José Miguel Júdice no fim-de-semana classificou do Miguel de Vasconcelos da tróica e das banca europeia, tenha preconizado uma mudança no radicalismo da austeridade criminosa que está a destruir o país e os portugueses, a par do incremento de uma verdadeira política de dinamização da atividade económica que não se compadece com palhaçadas, casos do supercrédito fiscal e outras palermices do género, como se a propaganda por si só resolvesse os nossos graves problemas. O que se passou, segundo foi noticiado, é que Passos Coelho, noutro clamoroso erro político no quadro da gestão da coligação, e que acabou por ser o rastilho desta trapalhada e desta espécie de crise, terá avançado com a promoção a ministra da secretária de estado e sua antiga professora na Universidade Lusófona, Maria Luís Albuquerque, sem ter comunicado essa decisão ao seu parceiro de coligação e correndo o risco de ser acusado de feito uma opção que garante a continuidade da política orçamental e da austeridade que o CDS contestava. Aliás a moção de Portas ao Congresso do CDS falava por si, embora isso não branqueie a sua solidariedade e partilha de responsabilidade pelo legado destes dois anos de governação.
Outro facto determinante foi a carta do ex-ministro Gaspar a Passos Coelho a qual, mais do que o assumir de erros, do falhanço de previsões e do reconhecimento da incompetência pessoal, continha insinuações e críticas diretas a Paulo Portas, particularmente devido ao falhanço, na perspetiva do ex-ministro, da amplitude e dureza da chamada reforma do estado que, pode-se deduzir, terá ficado aquém do pretendido por Gaspar na sua fúria radical de austeridade sobre mais austeridade, de roubalheira de salários, pensões e reformas sobre mais roubalheira de salários, pensões e reformas. A continuidade desta política contestada por Portas e pelo CDS, na figura de Maria Albuquerque, terá sido considerada uma provocação de Passos Coelho e mais uma desvalorização do CDS, partido essencial para a maioria absoluta parlamentar.
Mas terá sido isso o rastilho da crise? Sim, mas não só.
Portas sabe que o PSD e Passos Coelho não querem eleições - o PSD seria sempre dos dois partidos da coligação o que mais teria a perder – tal como sabe que o CDS descarta esse desfecho; sabe que Cavaco Silva teria sempre grande relutância em fomentar uma crise política; sabe que o CDS figura nos últimos lugares das sondagens, superando apenas o Bloco de Esquerda; sabe que ele próprio, Portas, é o líder político que nas sondagens aparece mais em queda e em desgaste. Mas sabe também que a nova ministra das finanças tinha a sua tomada de posse agendada, pelo que Portas deixou de ter espaço de manobra suficiente para pressionar o PSD e Passos Coelho e provocar o Presidente da República. Desesperado, optou por uma solução espalhafatosa, radical, de demissão irrevogável, decisão que colocava em causa a continuidade da coligação, pelo menos nos moldes até então vigentes. Teve contudo a honestidade, é certo, de assumir a causa próxima da sua decisão, embora eu não acredite que tivesse sido apenas esse o motivo da decisão. Havia um acumular de divergências, de recados, de contradições, de hesitações e de situações políticas graves e inaceitáveis - a pior das quais foi a declaração absolutamente idiota de Passos Coelho, numa entrevista na TVI, de que Gaspar era a 2ª figura do governo, desvalorizando e relegando o líder do seu parceiro de coligação para o 3º plano - que antevia, mais cedo ou mais tarde, este desfecho. Se fosse o contrário, duvido que o PSD não fizesse rigorosamente a mesma coisa, ou até mesmo pior.
Apesar de ser classificada de decisão pessoal, para justificar o facto de não ter contatado previamente os seus órgãos dirigentes do CDS – é um facto que Portas não tinha mais tempo para isso, se a sua ideia fosse, e acredito que era, a de tentar adiar a posse da nova ministra das finanças. O problema é que Portas, e bastava ler o comunicado por ele divulgado, deu claramente a entender duas coisas que não foram realçadas nem desenvolvidas pela comunicação social - que preferiu divertir-se com outras tontices - nem pelos comentadores televisivos que nesta espécie de crise tentaram ignorar factos que não lhes serviam ao discurso político e ao desfecho pretendido (LFM-JM)