"Crise é a palavra dominante. E os media não escaparam ilesos. Despedimentos, fecho de revistas e jornais regionais, quebra nas receitas com a venda de publicidade, transferência de leitores para as novas plataformas gratuitas. A RTP atravessou mais um processo negativo. O mundo dos media vive um processo revolucionário, defende Eduardo Cintra Torres. Em 2012, acentuou-se a dupla crise nos media: o reflexo da crise económica na publicidade e vendas; a transferência de leitores, espectadores e publicidade do papel para a internet, sem que se completasse a transição para novas formas de cobrança de conteúdos e operacionalizasse a publicidade através da internet e das comunicações móveis. A dupla crise foi dolorosa para a maioria dos media: houve despedimentos em massa, como no ‘Público’ e em publicações do grupo Impresa, e descida de salários; fecharam revistas; fecharam vários jornais regionais, como noutros países, empobrecendo o espaço público; saíram jornalistas seniores e aumentou o recurso a estagiários não pagos ou mal pagos, resultando conteúdos inexperientes, falhos de cultura geral e ponderação. Parte da promoção empresarial transferiu-se da publicidade para o marketing directo, como no recurso a SMS e falsos amigos do Facebook. A publicidade, por isso, perdeu qualidades que lhe estão associadas, como uma certa sublimação do carácter literário e estético, agora mais terra-a-terra e literal. A TV em sinal aberto perdeu receitas e teve de afunilar menos recursos nas mesmas horas de programação, com perdas na variedade e qualidade; alguma publicidade passou para a TV paga, mas ainda insuficiente para mais e melhores conteúdos nacionais e alimentando canais da TV paga estrangeiros, sem que a produção nacional beneficie. Também os lucros da TVI vão para Espanha, prejudicando a empresa. A medição de audiências foi dos aspectos mais negativos no mundo da TV. Os principais decisores impuseram a medição da empresa GfK, com graves problemas de credibilidade, transtornando o negócio televisivo. Por razões obscuras, permitiram e incentivaram uma audimetria sem credibilidade em 2012, prolongando-se em 2013. Esta audimetria favoreceu em especial a SIC.
O CASO RTP
Outro processo negativo: o da RTP. O governo ziguezagueou, arrastou a reforma do modelo, nomeou uma administração presidida por um gestor incompetente e dependente. Anunciado em 2010, o modelo governamental estava por escolher no final de 2012: fecho de um canal, privatização total ou parcial, concessão? Entretanto, com a mudança nos consumos de media e o desnorte da estratégia do operador público, a RTP perdeu audiência, credibilidade (casos Rosa Mendes, Prós & Contras em Angola, processo contra Nuno Santos) e relevância no espaço público. A crise e os interesses corporativos do negócio oligopolista da TV em sinal aberto manifestaram-se no processo da TDT, limitada aos quatro canais. O Parlamento, usando do seu poder, furou o oligopólio e impôs o seu canal na TDT. Os operadores de TV paga, como a ZON e o MEO, foram os principais beneficiários da transição para a TDT, chegando hoje a quatro em cada cinco lares portugueses, uma das mais altas penetrações no Mundo. Aceleraram a transição de caixas analógicas para digitais, com serviços adaptados ao consumo actual, como o acesso a tudo o que passa por género e título, gravação, recuperação de programas que já passaram e visualização em vários equipamentos: a TV deixa de ser o aqui e agora do que me querem "impingir" para ser o aqui, ali e acolá do que eu quero ver quando quiser. O empoderamento do espectador terá consequências no negócio televisivo. O mundo dos media vive um processo revolucionário à vista de todos. Os jornais, depois da loucura da oferta de conteúdos durante anos na internet, começam finalmente a encontrar meios de cobrar pelo negócio; as receitas da publicidade e dos modelos de cobrança pela internet ainda não compensam as perdas das versões em papel, mas o caminho está traçado. Para 2013, há sinais positivos de que a crise é ultrapassável. O CM impôs-se como o grande jornal nacional. Grupos como a Impresa, a Media Capital e a Cofina, esta dona do CM e do Jornal de Negócios, de que sou colaborador, mostraram que uma gestão rigorosa permite continuar a fazer conteúdos que correspondam aos interesses dos consumidores. Os cidadãos, pelo seu interesse e dispêndio com os media, apesar da crise, mostram que o jornalismo, enquanto actividade profissional, é essencial à vida pública numa sociedade democrática. Surgiram novos canais na TV paga, como na área do desporto, e outros estão para vir, como a CM TV. Vários jornais adaptaram os seus sites ao novo tipo de consumo pela internet, como o ‘Negócios’ e o ‘Público’. Em 2013, aumentará a audiência da TV paga, pelo desinteresse crescente dos espectadores pela maioria da programação oferecida pelos quatro canais de sinal aberto. Aumentará a percentagem do investimento publicitário naqueles canais, possibilitando pequenos avanços nas suas grelhas de programas. A internet subirá paulatinamente, mas, num mercado pequeno como o português, pouco se notará na qualidade dos media. E, se a crise apertar, ou os proprietários de media deficitários continuam a sustentar projectos falidos ou sem rentabilidade, ou haverá jornais, rádios e canais temáticos a fechar.
‘CORREIO DA MANHÃ’ LANÇA CANAL TELEVISIVO
O Correio da Manhã anunciou o lançamento da CM TV. O canal, que estreia em Março no MEO, contratou Carlos Rodrigues, José Carlos Castro, Francisco Penim e Andreia Vale, entre outros.
MEDIA CAPITAL LUCRA E IMPRESA COM PREJUÍZO
A Media Capital, dona da TVI, fechou os primeiros nove meses do ano com um lucro de 5,45 milhões de euros. Já a Impresa, dona da SIC, teve um prejuízo de 3,6 milhões.
FECHO DE REVISTAS E DESPEDIMENTOS
O ano de 2012 ficou marcado por vários processos de despedimento colectivo, que afectaram grupos como a Impresa e a Impala – que fecharam várias revistas – o ‘Público’ ou o ‘Sol" (texto de Eduardo Cintra Torres, crítico de Televisão, Cronista do ‘Correio da Manhã’, com a devida vénia)