segunda-feira, janeiro 21, 2013

Opinião: "Cavaco - três anos para fazer esquecer dois"

"Os dois primeiros anos do segundo mandato na Presidência da República, que se completam na quarta-feira, foram, como referem alguns analistas, a realização de uma profecia de Cavaco Silva na campanha eleitoral: anos de crise política, económica e social. Nessa antevisão do futuro, o ainda candidato via-se como a única fonte de esperança para os cidadãos. Mas o curso dos acontecimentos destruiu essa última imagem. Cavaco "ajudou" a fazer cair o Governo de José Sócrates, acompanhou as negociações com a troika e deu posse a um governo de coligação PSD/CDS, que quis ir além do programa de ajustamento. E foi nesse "além" feito de cortes nos subsídios aos funcionários públicos e pensionistas que Cavaco se deixou ensarilhar, num desabafo sobre a sua reforma.
Caiu a pique nas sondagens e ainda não recuperou. Nem se sabe ainda se conseguirá fazê-lo apesar de ter enviado o OE/2013 para o Tribunal Constitucional. Diz que há "espiral recessiva", mas quer a "estabilidade política", que não depende de Belém. Será a tensão que se gerar na sociedade, pela pressão de mais desemprego e reflexo da enorme carga fiscal (mesmo que o TC chumbe as normas do OE relativas às pensões) que ditará as regras com que se coserá a coligação Passos/Portas. Se a crise política voltar a estalar-lhe nas mãos, com idas aos mercados ou sem elas, Cavaco não pode voltar a ser o Presidente cauteloso que tem sido. Ainda que diga que não tem jeito para a política, terá de a exercer e decidir se é melhor para o País ser chamado de novo às urnas. Se não agir corre o risco de os próximos três anos não fazerem esquecer os dois que já passaram (...)" (editorial de João Marcelino no DN de Lisboa, com a devida vénia)