sexta-feira, março 18, 2011

Opinião: "Os jornais estão em experiências à procura do futuro"

"O iPad, lançado no ano passado, e os muitos tablets que se preparam agora para chegar às lojas têm feito brilhar os olhos dos gestores dos media. O chamado ecossistema de aplicações, em que os utilizadores podem com muita facilidade pagar por uma edição ou assinar uma publicação, fez renascer a esperança de cobrar por conteúdos jornalísticos – um produto que tem sido difícil de vender aos cibernautas que navegam na Web atrás do ecrã de um computador e que estão habituados a consumir tudo gratuitamente. Não há, porém, "soluções milagrosas", avisa Paul Bradshaw, professor convidado na City Unversity, em Londres, e coordenador do mestrado de jornalismo online na Universidade de Birmingham City. Bradshaw argumenta que os tablets não são o mesmo negócio que vender jornais ou revistas. "O problema é que eles [os patrões dos media] vêem as pessoas a pegar numa coisa que parece uma revista e pensam que se trata de uma revista. Mas esquecem-se de que não controlam a distribuição, não são donos dos dados dos utilizadores e que há uma competição quase ilimitada para conseguir utilizadores e publicidade". Recentemente, quando a Apple anunciou um novo sistema para venda de assinaturas para iPad e iPhone, uma das questões que desagradaram às empresas de media (para além da obrigatoriedade de entrega de 30 por cento das receitas) foi precisamente o facto de a Apple não ceder os dados pessoais dos clientes a não ser que estes o consintam - e esta informação é importante na criação de campanhas publicitárias. Por outro lado, há quem argumente que o impacto dos tablets (e do hábito de se pagar por conteúdos digitais nestes aparelhos) ainda está para ser sentido. É o caso de Ross Dawson, fundador do think-tank The Future Networks e autor de vários livros sobre a economia das redes. Um dos momentos importantes, defende Dawson, será quando os tablets começarem a ser gratuitos, à semelhança do que já acontece com muitos telemóveis, vendidos pelos operadores a preço zero (por ora, os tablets custam centenas de euros, mesmo com contratos de fidelização). "Muita gente terá boas razões para subsidiar o custo dos equipamentos", observa. "Os media vão distribui-los na subscrição de uma assinatura. E os anunciantes vão distribui-los com os seus anúncios já integrados".
Problema da publicidade
A imprensa está, em muitos países, num momento difícil. Mas, em termos globais, os jornais em papel até estão a vender-se bem. Segundo dados da Associação Mundial de Jornais, divulgados o ano passado, a circulação global tinha caído 0,9 por cento em 2009 (o que a associação considerou positivo, dada a crise financeira), mas crescera 5,7 por cento no total dos cinco anos até então. O aumento de circulação, porém, foi conseguido graças aos países africanos, asiáticos e sul-americanos. Em todos os outros continentes, houve uma quebra, liderada pela Europa, onde a circulação desceu 5,6 por cento (acima dos 3,4 da América do Norte). Há alguns anos, argumentava-se que o crescimento da publicidade online poderia compensar as perdas no papel e custear a disponibilização gratuita de conteúdos. Mas vários jornais estão agora mais cépticos e começam a optar por um modelo pago online (ou misto). É que o investimento publicitário na Internet tem vindo a crescer, mas o online ainda não é a escolha preferencial dos anunciantes. Números da analista de mercado Nielson estimam que, nos EUA, o investimento em anúncios online rondava, há um ano, os sete por cento do total. Já na Europa Ocidental, dados cedidos pela ZenithOptimedia ao PÚBLICO apontam para uma fatia de quase 16 por cento a ser investida na Internet. Mas, desta fatia, só uma fracção vai para os sites de jornais e revistas, que têm a concorrência dos portais e até de redes sociais, como o Facebook, onde é barato fazer publicidade direccionada. Em Portugal, e contrariamente ao que acontece relativamente aos outros meios, ainda não há dados oficiais sobre o investimento publicitário na Internet, esclarece a secretária-geral da Associação Portuguesa de Anunciantes, Manuela Botelho. Segundo números da associação, a grande fatia do investimento é na televisão, com 75 por cento do total em 2010. A imprensa está em segundo lugar, com 14,5 por cento do bolo. E embora, em termos absolutos, o dinheiro investido em publicidade esteja a aumentar, está em queda na imprensa há três anos. Ross Dawson criou em Outubro do ano passado uma cronologia para as datas em que os jornais em papel se tornarão irrelevantes (mas não necessariamente extintos) nos vários países do mundo. Segundo o trabalho (que teve eco na maioria dos grandes órgãos de comunicação), os EUA serão, em 2017, o primeiro país onde o papel vai perder toda a importância. Portugal, com o ano de 2028, surge mais ou menos a meio da tabela.As previsões são feitas com base em vários factores: entre outros, ritmo de adopção das tecnologias, saúde financeira dos jornais, distribuição da publicidade por sectores, demografia de cada país e intervenção governamental nos media. No topo da lista da irrelevância do papel estão a América do Norte, os países mais desenvolvidos da Europa Ocidental e alguns territórios asiáticos (como Hong Kong e Singapura). No fundo está quase toda a África, boa parte da América do Sul e muitos países do Sudeste asiático (precisamente aqueles onde os jornais ainda estão a crescer). Dawson, porém, argumenta que o papel não será substituído somente pelos ecrãs dos computadores, tablets e smartphones. Há ainda o papel electrónico, uma tecnologia que entusiasmou a indústria no início da década, mas que, entretanto, ficou essencialmente confinada aos leitores de livros electrónicos. "A promessa sempre foi a de um meio que tenha todas as qualidades do papel (ser dobrável, leve, legível à luz natural, agradável ao toque e onde se possa tirar notas), mas com as qualidades do digital: actualizável, pesquisável, com capacidade de aceder a todas as notícias do mundo." Mas estima faltarem vários anos para que esta tecnologia se torne um produto comercial. Por seu lado, Paul Bradshaw concorda que a ribalta tem sido "roubada" pelos tablets, mas diz que "não ficaria surpreendido se as tecnologias convergirem, de forma a que futuros tablets usem papel electrónico". E diz-se céptico quanto a datas exactas para o fim dos jornais em papel convencional. "Acho que não é possível apontar uma data para os últimos jornais". A razão é simples: nem todos são um negócio. "Sempre houve jornais com perdas. Algumas pessoas são donas de jornais para fazer dinheiro, mas outras são-no por uma questão de influência ou status. Enquanto isto continuar, acho que haverá sempre jornais".
Modelos para o jornalismo
As organizações de media estão a tentar vários esquemas para rentabilizar a produção jornalística.
Barreira de pagamentos
É mais conhecida pelo nome inglês, paywall, e foi já erguida por vários jornais conhecidos, entre os quais o Wall Street Journal, o The Times (ambos do magnata Rupert Murdoch, que tem sido um acérrimo defensor deste modelo) e o Financial Times. Será em breve implementada no New York Times. O sistema consiste em cobrar pelos conteúdos, seja num esquema de assinatura ou num modelo de micropagamentos (em que cada conteúdo a que se acede é cobrado, a um preço que pode ser de apenas alguns cêntimos). Em alguns casos opta-se por um sistema misto, em que o utilizador pode aceder a um número limitado de páginas gratuitamente antes de ter de pagar pelo acesso. O NY Times já tentou, entre 2005 e 2007, um modelo em que apenas eram pagos os textos dos colunistas, mas foi um fracasso.
Dispositivos móveis
A Apple, com a sua popular loja de aplicações, criou nos utilizadores dos seus produtos o hábito de pagar por conteúdos digitais (já o tinha feito com a música no iTunes) - e a indústria tem depositado esperança neste modelo, que funciona nos tablets e nos cada vez mais populares smartphones. Em Portugal, a Visão e o Expresso, por exemplo, vendem as respectivas edições no iPad e o PÚBLICO vai lançar também uma versão paga. Rupert Murdoch criou um jornal diário exclusivamente para o iPad, pago por assinatura. As versões para tablets e para smartphones também permitem anúncios publicitários.
Mecenato
Por definição, não é um modelo de negócio. Mas há quem argumente que mecenas interessados em jornalismo de serviço público podem ser um dos garantes do jornalismo de qualidade. Um dos exemplos mais conhecidos é a ProPublica, uma organização americana sem fins lucrativos, com cerca de 30 jornalistas encabeçados por um antigo membro da direcção do Wall Street Journal. A ProPublica tem um orçamento de dez milhões de dólares anuais, doados por um casal de filantropos. A ProPublica publica os trabalhos online, no próprio site, e faz parcerias para os publicar gratuitamente noutros órgãos de comunicação. No ano passado, tornou-se a primeira organização exclusivamente online a ganhar um Pulitzer, graças a um trabalho de investigação sobre o funcionamento de um hospital durante a ressaca do furacão Katrina, também publicado no New York Times.
O dinheiro da multidão
Algumas organizações estão a recorrer ao modelo de financiamento colectivo (chamado crowd funding), em que qualquer pessoa pode dar um contributo financeiro para ajudar a custear um determinado trabalho jornalístico. Um dos sites mais conhecidos do género é o americano Spot.us. Os visitantes podem sugerir um tema ou contribuir para algum dos que já estejam listados. Os trabalhos são feitos por jornalistas freelancers, que também podem propor histórias e tentar obter financiamento através do site
(artigo de João Pedro Pereira, no Publico com a devida vénia)

Sem comentários:

Enviar um comentário