terça-feira, março 22, 2011

Açores: "O Turismo entrou em coma?"

"O número de turistas estrangeiros que visitou os Açores em Janeiro foi o mais baixo dos últimos 10 anos – e provavelmente será o mais baixo desde que o turismo começou a ter alguma expressão na Região. Apenas 6.476 dormidas dão bem o sinal de um sector numa crise sem precedentes. É uma redução de 14% em relação aos já débeis 7.524 verificados no mês homologo, que já era o pior valor deste 2001. (Em termos estatísticos não existem dados antes deste ano disponibilizados pelo Serviço Regional de Estatística). Não será exagero dizer que o turismo está em coma. Desde logo, porque só de pode falar de turismo (como definição de base para o investimento regional e estratégia do sector) no caso dos estrangeiros. Os dados demonstram claramente que os cerca de 10 mil portugueses que se alojam em Janeiro nos hotéis açorianos não são turistas. Por outras palavras, não se deslocam à Região para fazer turismo, mas são sobretudo viajantes profissionais. Basta ver os dados desde 2004 para se compreender isso: o mínimo de hóspedes portugueses verificou-se em 2006 com 8.763 hóspedes, e o máximo em 2007 com 11 mil. Trata-se de uma oscilação mínima: a média desses 8 anos é de 9.855, praticamente o valor atingido no mês de Janeiro (9.838). A média de estadia dos portugueses também tende a confirmar essa conclusão: apenas 2,2 dias por hóspede em Janeiro de 2011, enquanto que a média dos últimos 8 anos é de 2,4. Já os estrangeiros apresentam uma média de 4,35 nestes 8 anos, que é sensivelmente o dobro dos portugueses. Por isso, uma análise fria dos números do turismo implica que apenas se contabilizem os estrangeiros. E a situação é péssima: pela primeira vez o número de dormidas é inferior à capacidade de camas: há 7.835 camas e houve 6.476 dormidas de turistas. No ano passado esse recorde ainda não tinha sido atingido, embora por pouco (7.984 dormidas de estrangeiros). Por outras palavras, os hotéis receberam em média 1 dormida de um estrangeiro por cada cama que têm disponível ao longo de todo o mês... Por outro lado, a história do turismo nos últimos dez anos deixa perceber uma flagrante indefinição dos mercados. Este ano, os alemães são os que mais se destacam, com 40,6% das dormidas. Mas dificilmente se poderá dizer que seja a nova tendência: apesar de haver um grande crescimento em relação ao início da década (de médias inferiores a 400 dormidas, passou-se desde 2009 para médias superiores a 2.500), o seu peso reflecte sobretudo o baixíssimo número de dormidas geral. Em Janeiro os alemães foram responsáveis por 2.638 dormidas, mas esse é um valor muito inferior aos mais de 8 mil do período dos dinamarqueses, ou dos mais de 11 mil do período sueco. E a Alemanha tem um mercado potencial muito superior. A realidade é que já se pode olhar para trás e contemplar os mercados perdidos. Os suecos chegaram a ser responsáveis por mais de 13 mil dormidas em 2003… De 2002 a 2005 o seu valor nunca foi inferior a 12 mil dormidas! Em 2006 houve uma quebra abrupta para 2.370, uma ligeira recuperação para 5.470 em 2007 e desde então são residuais: apenas 171 dormidas este ano, o que até já permite pensar que se trata de visitas a familiares cá residentes... Aconteceu o mesmo com os dinamarqueses, embora a um nível um pouco menos expressivo: em 2005 começaram a vir, com 8.581 dormidas, continuaram no ano seguinte e em 2007 atingiram os 10.672. Em 2009 o seu valor caiu para 6.820, e desde então são também residuais: apenas 61 dormidas neste mês de Janeiro. Quando se olha para os valores de 2005, com 27 mil dormidas, ou de 2007, o último com mais de 20 mil, é difícil não ficar com uma sensação estranha de que alguma coisa terá falhado redondamente. Será possível que as ilhas não tenham agradado a estes turistas de Inverno? Para quem, como os açorianos, gosta de se gabar de viver em ilhas das mais bonitas do mundo, há realmente algo que não bate certo..." (texto do jornalista do Diário dos Açores, Manuel Moniz, com a devida vénia)

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