Opinião: "Um homem derrotado"
"Fernando Teixeira dos Santos já foi a válvula de segurança deste Governo: quando tudo parecia correr mal — e corria mesmo, como sabemos agora —, dava uma entrevista à televisão e o nervosismo acalmava. Em novembro de 2008, o jornal “The Financial Times” considerou-o o pior ministro das Finanças entre 19 Executivos europeus. Mas nem isso abalou, em Portugal, o perfil de seriedade e competência que projetava e que manteve mais ou menos incólume até ao dia de 2009 em que veio admitir que um défice inicial de 3,9 por cento começou por resvalar para os 5,9 e acabou nos 9,3 por cento. Em circunstâncias normais, esse teria sido motivo suficiente para demissão, mas, infelizmente, desde há muito que não vivemos em circunstâncias normais. Entre as razões eleitorais e as razões da crise, como justificação para o descalabro orçamental, ficou alguma margem de dúvida. E o ministro, que tinha a seu crédito o êxito da redução do défice para 2,6 por cento em 2007, foi resistindo, até pela sua capacidade de manter a serenidade e o bom senso num Governo cada vez errático e inseguro. Desde então, com o fracasso dos PEC 1 e 2, mais o chamado “buracão” de 2010, algo parecido com dois mil milhões de euros, a confiança em Teixeira dos Santos declinou inexoravelmente. E é assim que, quando o país mais precisava de um ministro das Finanças seguro e incontestável, no plano interno e no plano externo, no plano político e no plano técnico, temos no Terreiro do Paço um homem cansado e um político derrotado. Por culpas próprias e alheias, já que, além dos condicionalismos externos, recaem sobre ele as culpas de todos os outros membros do Governo, começando no primeiro-ministro e acabando no secretário de Estado mais irrelevante, que também mexe no orçamento. Ao afirmar, numa entrevista ao Expresso, que a hipótese de Portugal recorrer a apoios internacionais “começa a colocar-se” no caso de as taxas de juro da dívida “se aproximarem dos sete por cento”, o ministro não cometeu apenas uma gafe política. A sua afirmação corresponde também a uma avaliação técnica errada, visto que declarava, na mesma entrevista, não acreditar que os juros chegassem tão alto. E eles chegaram, em escassas semanas. Por mais injusto que isto seja para o cidadão Teixeira dos Santos, cujo esforço e boa intenção não se questionam, esgotou-se como ministro das Finanças. Se continua é porque José Sócrates jamais tomará a iniciativa de o sacrificar. Deve-lhe reconhecimento e gratidão e não tem, provavelmente, ninguém melhor para o lugar. Além disso, uma remodelação faz sentido quando um Governo dá ainda sinais de algum vigor. E, no caso de uma avaliação de desempenho do atual Executivo, o mais difícil seria encontrar ministros em condições de escaparem, sem favor, a uma remodelação que se pretendesse útil e séria". (Fernando Madrinha, Expresso, com a devida vénia)
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