domingo, agosto 23, 2009

Angola: Construtoras portuguesas sofrem...

Garante o Expresso num texto dos jornalistas Abílio Ferreira e João Silvestre que "os efeitos da crise internacional na economia angolana estão a afectar muitas construtoras portuguesas que operam naquele país. Tem havido atrasos nos pagamentos, mas as várias empresas contactadas pelo Expresso desvalorizam a questão e garantem que estes estão a acontecer, embora mais lentamente. O ‘eldorado africano’, que entre 2005 e 2008 cresceu a uma taxa média anual de 18,5%, tem sido a aposta de muitos empresários portugueses que tentam aproveitar o dinamismo angolano para crescer fora de portas. Só que a crise internacional não poupa ninguém e a veloz lebre africana está a perder fôlego. Para este ano, as últimas estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas em Abril, apontam para uma contracção do produto interno bruto (PIB) de 3,6%. O maior problema, dizem os especialistas do FMI, vem precisamente do sector do petróleo, o mais importante da economia angolana, que está a sofrer com a quebra nos preços internacionais. Bem mais optimistas, os analistas do Banco Espírito Santo esperam um crescimento de 5%, o Governo angolano estima um valor de 6,2% e o Banco Mundial, que reviu recentemente as projecções, prevê agora um ligeiro crescimento. João Pereira Miguel, economista do BES, justifica a projecção do banco com as melhores perspectivas no sector petrolífero na segunda metade do ano e também com o dinamismo de alguns sectores, como a construção, as obras públicas ou a extracção mineral. “Tem havido um aumento do ritmo de crescimento da produção de petróleo e dos preços”, sublinha. O economista lembra que o orçamento rectificativo aprovado em Junho tem uma projecção para o preço médio anual do barril de 35 dólares. O petróleo e a desvalorização da moeda (kwanza) têm sido os principais veículos de transmissão da crise internacional para território angolano. Para tentar evitar males maiores, o Banco Nacional de Angola introduziu uma limitação às transferências para o exterior em moeda estrangeira, depois de as reservas de divisas terem caído para quase metade desde Novembro de 2008. O banco central aumentou ainda os rácios de reservas dos bancos e limitou os levantamentos.
Construtoras desvalorizam
O atraso nos pagamentos pressiona a tesouraria das construtoras portuguesas, mas a generalidade prefere desdramatizar. “Os pagamentos tornaram-se mais lentos”, resume uma fonte do sector. “Quem já está com dificuldades em Portugal e acreditava no eldorado, vai desgraçar-se de vez em Angola”, avisa um empresário que resume a realidade angolana de 2009 em três pontos. Há menos contratos, maior dificuldade em receber contratos antigos e em transferir os pagamentos por parte dos bancos.
As construtoras lusas facturam, por ano, cerca de €1,5 mil milhões no mercado angolano, representando, nos principais grupos, entre 20 e 40% do seu negócio. A brasileira Odebrecht, por exemplo, já parou obras e está a reduzir a sua exposição. Se no período da guerra, empresas como a Soares da Costa, Mota-Engil ou Teixeira Duarte estiveram anos à espera de receber e não pararam as obras, não seria agora que adoptariam gestos de hostilidade face a dificuldades momentâneas, induzidas pela quebra da receitas do petróleo e, em menor escala, do negócio dos diamantes. Nalguns casos, as obras beneficiam de linhas de créditos e, em geral, as construtoras contam com pagamentos à cabeça. A Mota-Engil, que opera em Angola há 60 anos, não está nada incomodada com um ou outro atraso nos pagamentos. “Nem receio nem preocupação. Até vamos aumentar o nosso volume de negócios em 30%”, diz Jorge Coelho. Para ele, quem se internacionaliza tem de saber conviver com a realidade de cada mercado onde opera. A Edifer acredita que em Setembro a situação se regularizará se a receita do petróleo não voltar a derrapar. A construtora, uma das que tem maior exposição a Angola, reconhece atrasos que chegam a seis meses, “tornando-se uma pressão suplementar sobre a tesouraria”, diz o seu porta-voz. A Opway “também sente esse impacto negativo”, segundo o seu presidente, Grade Mendes, mas em menor grau pela reduzida exposição (€50 milhões por ano). No mercado interpreta-se a recente aliança da Mota-Engil com a Sonangol como uma defesa do grupo ao risco do país. Jorge Coelho diz que o conceito de “risco” não se aplica a Angola e contraria a leitura. A parceria, refere, “visa impulsionar a actividade e crescer noutras áreas”. Em Setembro, o Grupo Espírito Santo inaugura a torre mais alta de Luanda, construída pela Teixeira Duarte. Um símbolo do investimento português no imobiliário angolano.
Principais fragilidades
Preço do petróleo: a queda na cotação internacional do barril é uma das principais causas das dificuldades em Angola. Espera-se uma recuperação da produção no segundo trimestre.
Cotação do kwanza: em tempo de crise, as saídas de capitais traduzem-se em desvalorizações da moeda. O banco central interviu já para travar a fuga de divisas".

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